Cada um por si: assim caminha o futebol brasileiro

A disputa que vemos hoje nos tribunais esportivos pelo direito de levar o público de volta aos estádios é mais um triste capítulo das posições individualistas dos dirigentes do futebol brasileiro. Justamente no momento que os 40 maiores clubes do país ensaiam a criação de uma Liga, que seria a responsável pela gestão, comercialização e administração dos campeonatos nacionais das séries A e B.

É certo que vivemos um certo desespero pela geração de receitas por parte dos clubes por causa da pandemia do covid-19. Todos perderam muito com a arrecadação de bilheterias pela proibição, mais do que justificada, da presença de público nos estádios. Mas destoa da conduta de união pelo futebol o pensamento unilateral de alguns clubes como Flamengo e Atlético na série A e Cruzeiro na série B que ingressaram na justiça desportiva para exercerem o direito de levar torcedores de volta aos estádios.

Vale esclarecer que não há qualquer ilegalidade dos clubes. Pelo contrário. A liberação do público por parte das autoridades municipais e estaduais existe e por isso os clubes estão agindo dentro da lei. Mas agem de maneira egoísta quando enxergam apenas o direito de cada um em detrimento do acordo coletivo que havia sido regrado pela CBF no regulamento das competições, de liberar o retorno do torcedor apenas quando todos os clubes pudessem fazê-lo, mantendo um certo equilíbrio de força desportiva.

Até agora, entre as 40 equipes das duas divisões, apenas o Cruzeiro conseguiu abrir as arquibancadas para o seu torcedor em duas ocasiões pela Série B, contra o Confiança, no Mineirão, e no fim de semana que passou contra a Ponte Preta, em Sete Lagoas. O Flamengo, que assim como o Cruzeiro e o Atlético, possui uma decisão favorável do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, já informou que vai abrir os portões do Maracanã para o retorno dos torcedores na partida de volta contra o Grêmio, pela Copa do Brasil, na próxima quarta-feira, dia 15. A CBF entende que a medida fere o equilíbrio da competição já que na partida de ida, em Porto Alegre, não houve presença de torcedores. O Grêmio já informou que vai para o Rio de Janeiro e pode não entrar em campo se houver a presença de torcedores.

Na semana passada, 18 clubes da série A ingressaram com um pedido de revisão da liminar dada do Flamengo. Apenas o Atlético, que também tem uma liminar para o retorno do público, não assinou o documento contra o Flamengo. Só que o clube de BH ressaltou que está de acordo com os 18 clubes pelo retorno do torcedor no Brasileirão apenas se todos puderem exercer o mesmo direito. Mas se o Flamengo usar a liminar, o Atlético disse que também vai usar a que tem. Os clubes da Série B fizeram o mesmo movimento para derrubar a liminar do Cruzeiro, mas até agora o clube mineiro continua com o direito assegurado de contar com o torcedor nas arquibancadas.

Outro capítulo é a Libertadores que permite que cada país decida pelo retorno ou não dos torcedores. Surge então outra situação curiosa. O Palmeiras, adversário do Atlético, não poderá contar com o torcedor na partida de ida das semifinais, dia 21 de setembro, porque o estado de São Paulo só liberou o retorno do torcedor para novembro. Já o Atlético pretende contar com o seu torcedor na partida de volta, dia 28 de setembro, contra o Palmeiras no Mineirão. Lembrando que o tal equilíbrio técnico foi deixado de lado há algum tempo nesta competição. Pelas quartas de final, Atlético x River Plate teve público, mas a partida na Argentina não.

Diante deste cenário de disputa fora de campo, fica difícil, imaginar que os clubes consigam deliberar pela criação de uma Liga, que seria um marco na gestão do futebol, seguindo o modelo europeu. A primeira reunião aconteceu há quase dois meses e não há um no encontro agendado.

Twitter @armandoBH69

Imagem em destaque: Bruno Haddad/Cruzeiro.