Copa América expõe as incoerências e a fragilidade histórica da competição

Quando falamos em seleção brasileira a primeira coisa que nos lembramos são os grandes times, os grandes jogos, vitórias e derrotas marcantes e disputa por títulos. Mas dificilmente vamos nos lembrar no primeiro momento de uma Copa América. O torneio nunca foi valorizado pelos brasileiros, exceto quando o país encarava o jejum de títulos internacionais ou quando enfrentávamos a Argentina. Agora, a lambança da Conmebol ao trazer a competição para o Brasil virou um ato de resistência e contestação e pode criar um sentimento nacional de vergonha.

A esportividade da Copa América é questionável, pelo menos entre os brasileiros. Durante décadas a competição foi deixada em segundo plano pela nossa seleção. Em 1975, por exemplo, sem tirar o mérito da equipe que entrou em campo, foi montada uma base com a seleção mineira para a disputa do torneio. A Copa América é o campeonato de seleções mais antigo do mundo. A primeira edição foi realizada em 1916, mas a falta de regularidade, mudanças de regulamento e participação de seleções convidadas transformam a competição em um torneio de menor importância. Os maiores vencedores são a Argentina, com 9 títulos, Uruguai e Chile com 7 conquistas e Brasil e Peru com 6.

A Conmebol até que vem tentando dar prestígio à competição ao longo dos últimos anos, com premiações milionárias em dinheiro e com ajuste de calendário para que seja disputada ao mesmo tempo em que a Eurocopa – competição tradicionalíssima de seleções da Europa. Mas diante de uma crise sanitária que vive o planeta e problemas de ordem político-social como na Colômbia, a edição de 2020, que foi adiada para 2021, pode acabar sendo o maior fiasco da história.

Marcada às pressas para o Brasil, com jogo de abertura dia 13 de junho, depois da recusa da Argentina que seria sede única, também depois da desistência colombiana de ser uma das sedes, a Conmebol conseguiu que a competição desembarcasse por aqui. Quatro cidades sedes, Goiânia, Brasília, Cuiabá e Rio de Janeiro. Desde o anúncio que o Brasil abrigaria a Copa América, as reações foram imediatas, a maioria das manifestações contrárias à realização por causa da situação ainda caótica que o país vive diante da pandemia do Covid-19.

E é claro virou palanque político com a entrada do presidente da República na defesa institucional, em rede nacional, da competição no país. Por outro lado, jogadores e comissão técnica da seleção deram vários sinais de insatisfação e prometeram uma fala mais direta sobre o tema após a partida contra o Paraguai, pelas eliminatórias da Copa, nesta terça, em Assunção. Para muitos jogadores e técnicos de outras seleções, a competição não deveria seguir no calendário.

Estamos a uma semana da abertura da Copa América, mas não sabemos mesmo se ela vai acontecer e, se confirmada, quem estará em campo. Podemos ter uma situação de boicote dos atletas e comissão técnica da seleção principal o que obrigaria a CBF, se quiser se manter na competição, a escalar outra equipe, a seleção Olímpica, por exemplo. Diante das incertezas, as especulações só tendem a aumentar. Outras seleções podem seguir o caminho do anfitrião? E aqui não está incluído outro ingrediente importante, a crise de credibilidade do atual presidente da CBF, Rogério Caboclo, acusado de assédio moral e sexual por uma funcionária da entidade.

Fato é que a Copa América ainda não encontrou um caminho de credibilidade ao longo de mais de 100 anos de existência e que a edição de 2021, qualquer que seja o desfecho, já está marcada como mais uma competição que não se justifica diante de um calendário do futebol mundial apertado. E a Conmebol continua atuando para garantir a Copa motivada por interesses comerciais que querem explorar os direitos e propriedades, valiosíssimos, quando falamos na presença de estrelas como Messi e Neymar e marcas como as seleções Brasileira e Argentina.

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