Cruzeiro enfrenta o maior desafio em 100 anos de vida: se manter de pé

Nem o mais pessimista torcedor cruzeirense poderia imaginar, no final de 2018, celebrando o sexto título da Copa do Brasil, que o centenário do clube seria um calvário como tem se mostrado. Naquele ano, o clube se tornava o maior vencedor da competição nacional com seis conquistas e celebrava o segundo título seguindo, com uma festa enorme em Belo Horizonte e com a torcida que abraçava e se orgulhava dos resultados gigantes do clube.  Mas passados pouco mais de 3 anos, o que vemos agora é um cenário de tristeza, desesperança, sofrimento e conflitos, dentro e fora do campo.

O Cruzeiro de 2021 tem a dura missão de retornar à série A do brasileirão, não brigou diretamente pelo título mineiro e deu adeus à Copa do Brasil após uma melancólica eliminação para o modesto Juazeirense, da Bahia. O time está na zona de rebaixamento da série B, com um ponto em apenas três rodadas, ainda não venceu na competição, e já trocou de treinador pela sexta vez em dois anos.

O que vemos em campo, é o que basicamente podemos registrar, seja um jornalista ou torcedor, é uma equipe sem a força que fazia os adversários respeitarem o confronto. E sinceramente não acredito que isso seja culpa dos atletas e dos treinadores que estão no clube ou já passaram por aqui. Estou preparado até para ser “apedrejado” por essa afirmação, mas não acredito que um profissional do futebol, que tem consciência da sua carreira e da exposição pública que o afeta, saia de casa para errar, para não dar o seu melhor.

O problema está mais entranhado nos bastidores do futebol, nas camadas diretivas e na política que coloca interesses pessoais acima da instituição, mesmo que não sejam interesses financeiros. Enquanto os clubes de futebol não atuarem como instituições privadas de interesse público, com políticas e práticas de governança, transparência e responsabilidade financeira, o ciclo vicioso de gestores descompromissados com o clube vai se perpetuar.

E o Cruzeiro tem sido apenas um péssimo retrato do que acontece, em maior ou menor grau, com a maioria dos clubes do futebol brasileiro. Alguns aparentam mais organização e são salvos por injeções de dinheiro de mecenas, torcedores fanáticos, parceiros comerciais que mais exploram do que geram produtos realmente rentáveis e empresários que se aproveitam das crises para lucrarem com dívidas impagáveis.

É preciso registrar que muitos clubes têm buscado soluções profissionais para atuar na gestão e resolver um histórico de “uso” da instituição por parte de alguns dirigentes. Mas isso ainda é pouco. Talvez o debate e possível aprovação do projeto de lei de transforma os clubes que quiserem em Sociedades Anônimas do Futebol, em votação no senado seja um caminho. Link do projeto abaixo:

https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/139338

Voltando ao Cruzeiro 2021, o cenário agora é transformar os 35 jogos que restam na temporada em decisões de vida. O grupo que está aí, jogadores, dirigentes e comissão técnica, precisam tratar este objetivo como algo maior do que as necessidades individuais. Retornar à série A é tão histórico como celebrar os 100 anos de vida. Deve encher o espírito de orgulho e motivação de fazer parte de uma história de reconstrução.

Gerar uma energia de superação que mostre a capacidade de vencer as dificuldades. Não é papo de autor motivacional. É realmente enxergar que quanto maior o desafio, maior a conquista, maior o prazer de vencer, maior a capacidade de se entregar ao propósito, desfrutar da viagem até chegar ao destino. É preciso que todos estejam na mesma página, na mesma sentença, na mesma letra. Letra A.

Twitter @armandoBH69