Especialista explica o que esperar do 7 de setembro e dos riscos à democracia

Luis Flávio Sapori é sociólogo e doutor em sociologia. Foi Secretário Adjunto de Segurança Pública do Estado de Minas Gerais e coordenou o Instituto Minas Pela Paz. É professor universitário e coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em segurança pública (CEPESP – PUC Minas ). Foi cargo de Secretário de Segurança Pública do Município de Betim (MG). Neste artigo, Sapori avalia o que esperar do País neste 7 de setembro e do atual momento político.

A comemoração de 7 de setembro deste ano certamente terá diferenças em relação aos anos anteriores. Acontece em um momento de muita tensão política, como há muito tempo não se via, e numa conjuntura onde as ameaças de ruptura institucional são nítidas por parte da Presidência da República.

Há um segmento da militância política bolsonarista muito radicalizado, que tem propagado nas redes sociais a ideia de fazer do dia de hoje não só um momento de afirmação do Presidente Jair Bolsonaro, mas de constrangimento das outras instituições da República, principalmente o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional.

É um 7 de setembro nada equivalente nos últimos 30 anos. Aliás, vivemos um momento de ameaça à democracia sem precedentes, deste a Constituição de 1988. Não há dúvida que os riscos de retrocesso institucionais são reais.

Há uma militância muito grande do bolsonarismo  junto aos policiais militares que, majoritariamente, abraçam essa causa político-ideológica. Todos esses contextos reforçam o risco de uma ruptura institucional. O próprio Bolsonaro busca a sedução das forças armadas. Ele tem feito sistematicamente a convergência da marinha, exército e da aeronáutica às suas intenções ideológicas. Temos também um cenário de complacência ao presidente, vindo de alguns segmentos religiosos expressivos.

Mas, não vejo possibilidade de golpe  militar porque depende de uma ação das forças armadas que, até o momento, não acenaram para essa ruptura. Não basta a militância sair para a rua, uma greve de caminhoneiros ou o aceno dos policiais militares e evangélicos. Isso por si só não garante um golpe porque não são a maioria da população. O exército é que garantiria um eventual fechamento do Supremo, do Congresso, o que seria na prática uma ruptura institucional.

Não vejo o alto comando do exército disponível para isso. Ao contrário. Há sinais claros de insatisfação com a forma como Bolsonaro tem conduzido esse processo.

 E o que deslegitima as pretensões bolsonaristas é a clara segmentação do alto empresariado brasileiro. Grande parte se manifestou recentemente contra o acirramento dos conflitos constitucionais, condenando qualquer tipo de ameaça à democracia. Isso envolve a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), a Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) e o setor do agronegócio.

Podemos ter muita gente na rua hoje, com peso maior na capital paulista e em Brasília. Há risco de desordem, depredação, com maior preocupação sobre a capital federal onde há uma turma querendo invadir o Supremo. Mas, se Bolsonaro vier com um discurso muito radicalizado, de enfrentamento e se ele ficar seduzido pelo que vier das ruas, pode dar um golpe final contra si próprio. Um tiro no pé, legitimando e induzindo a um processo de impeachment. O feitiço pode virar contra o feiticeiro.

Luis Flávio Sapori.

Imagem em destaque: http://saporiconsultoria.com.br