Hipocrisia… eu quero uma para viver! Porque a bola não para, não para

O futebol aos poucos vem retomando uma rotina mais relaxada em relação à pandemia de Covid-19. Mais eventos, permissão de presença de público em alguns países da Europa, pressão para o retorno dos torcedores no Brasil e aquela sensação coletiva de que os riscos estão menores para a contaminação e a propagação da doença. Isso tudo, diante de um cenário de casos e mortes que não está longe de uma curva acentuada de redução. No Brasil, estamos perto de 5 milhões de casos e mais de 140 mil mortes.

As melhores práticas para o futebol não têm se mostrado suficientes e eficientes. Ainda estamos aprendendo. Protocolos, estudos, investimento em testagem, um certo isolamento social, muita coisa tem sido feita desde julho quando o país retomou os jogos oficiais. Mas aquilo que se mostrava razoavelmente organizado e com um certo grau de assertividade para termos segurança com o retorno dos jogos enfrenta a variável que muitas vezes aparece do nada no esporte: o interesse de cada um. Um interesse desprovido de lealdade, esportividade e respeito ao próximo.

O capítulo escrito no Brasileirão na semana que passou é assustador. O personagem principal, o atual campeão brasileiro, o clube de maior torcida do País e o que deveria dar os melhores exemplos, o Flamengo. O clube carioca foi o que mais contestou a gravidade da doença e os riscos da COVID-19 desde o início da pandemia com diversas declarações públicas dos dirigentes.

O time treinou escondido quando a prefeitura do Rio não havia liberado as atividades; queria o retorno imediato das competições quando o país ainda não tinha ideia do tamanho do estrago da doença; é defensor do retorno imediato dos torcedores para o estádio, alegando que está tudo controlado; e nos últimos dias virou a vítima mais sofrida da pandemia com 41 pessoas entre  jogadores, dirigentes e funcionários contaminados pela doença

O clube foi para luta judicial, Esportiva e Trabalhista, para suspender um dos seus jogos no campeonato contra o Palmeiras, alegando riscos para a saúde. Tudo isso para garantir a seguranças dos seus profissionais. Justo, muito justo, pensando na vida e na saúde dos adversários também. Essas alegações são muito hipócritas vindo de quem vem.

Em momento algum, diante do drama de todas as contaminações, qualquer dirigente do clube veio a público assumir que estava errado em menosprezar a pandemia. Pelo contrário, o clube reforça que fez e faz tudo certo desde o início da pandemia. O único que pagou pela atitude errada diante das contaminações no clube foi um funcionário da comunicação que publicou uma foto dos jogadores sem máscara, no avião que retornava do Equador, depois que vários atletas já tinham sido diagnósticos com a COVID. Foi demitido. A foto publicada em redes sociais expôsa realidade do clube que estava celebrando, isso mesmo, celebrando a conquista dos três pontos na vitória que teve sobre o Barcelona de Guayaquil. Era o mais importante.

Essa disputa e as incoerências infelizmente não cessarão enquanto os interesses pessoais estiverem em pauta, ainda mais com a visibilidade que é dada aos vencedores que parecem que fazem tudo sempre certo. Afinal, vencem. E para muitos, é só isso que importa no futebol. Não por acaso, o Flamengo é o clube onde morreram 10 garotos, entre 14 e 16 anos, queimados em um incêndio no CT do clube, em fevereiro do ano passado.

Twitter @armandoBH69