Mariano de Abreu e Santa Inês: bairros que tiveram um começo difícil

Em mais esta viagem pela história dos bairros da região Leste de BH vamos fazer duas paradas, uma no Mariano de Abreu e outra, no Santa Inês. Quem nos leva são dois líderes comunitários. Marizete Amaral relembra conquistas sociais importantes. Antônio Paulino vai te contar sobre a surpreendente relação entre a grama do Santa Inês e o Distrito Federal.

A presidente da Associação Comunitária e Habitacional do Mariano de Abreu, Marizete Amaral Leão, não foi uma das primeiras a se mudar para o bairro, que tem o nome do dono da antiga fazenda que existia no local. Quando ela chegou havia famílias instaladas há um ano. Todos sob a orientação da Famob (Federação das Associações de Moradores de Bairros, Vilas e Favelas da Capital). “ Veio gente dos abrigos e de várias regiões da capital viver aqui. O Mariano de Abreu foi a primeira ocupação organizada pela Famob”, lembra.

E nada foi fácil desde então. Marizete viu muitos amigos serem presos, barracos derrubados e testemunhou a truculência dos policiais contra os moradores. “A Polícia quebrou a perna do Paulo Barroso, bateram no Edson Pereira, o Edinho, no Paulo Augusto, o Paulão, no Toninho da Famob, entre outros. Foi um período de muita violência aqui”. Mas, segundo a líder comunitária, a pressão da Famob sobre a Câmara dos Vereadores e a administração municipal foi fundamental para que a comunidade resistisse em permanecer na área.

As ruas eram de terra e não havia saneamento (acervo Marizete)

O Mariano de Abreu foi se estruturando com a força da comunidade e a ausência do poder público. As primeiras 940 moradias foram construídas com recursos da Prefeitura de BH. Eram barracões com um cômodo e um banheiro. Faltava o mínimo de infraestrutura, como saneamento básico, transporte coletivo e água encanada. “A gente ia lavar roupas e vasilhas no poço da Mata do Inferno”, conta Marizete. As primeiras conquistas vieram com o Orçamento Participativo, na administração do prefeito Patrus Ananias.

As principais foram a urbanização e drenagem das ruas com casas abaixo do nível e que sempre eram inundadas no período chuvoso. A ampliação do centro de saúde e a entrega do BH Cidadania João Amazonas. “Mas, falta muito a se fazer pelo povo aqui. Temos 40 famílias que ainda convivem com esgoto a céu aberto. Já cobramos a construção de 32 apartamentos, em obra aprovada pelo Orçamento Participativo de 2004. Falta terminar a praça de esportes da rua João Neiva e uma infinidade de projetos que não saem do papel”.

Marizete e a neta Manu esperam por mais melhorias (foto Marizete)

O que o Santa Inês tem a ver com Brasília?

O Santa Inês situa-se onde existia um antigo parque com o mesmo nome e onde funcionava a Companhia Fiação Tecidos Minas Gerais. O presidente da associação comunitária Antônio Paulino se mudou para lá há 55 anos e viu todo o progresso do bairro. Mas, o início foi difícil. “Aqui tinha muito formigueiro. Quando comprei o lote para morar aqui meu pai me repreendeu, dizendo que eu iria morar no formigueiro. Não foi fácil!”.

Os primeiros moradores, segundo senhor Antônio, eram funcionários da antiga Rede Ferroviária Federal. Ele se lembra bem do trem que levava gado e suíno para o abate no bairro Matadouro, hoje bairro São Paulo. “Eu vi passar o trem para o subúrbio, o trem elétrico e hoje, o metrô”. O bairro é atendido pelas estações Santa Inês e José Cândido da Silveira.

Santa Inês, visto da passarela do metrô (foto Antônio Paulino)

O que pouca gente sabe é que a grama que nascia por todos os cantos do Santa Inês era de qualidade tão boa que parte dela foi retirada e levada para a construção de Brasília. “Muita gente lá do Distrito Federal pisa no chão que é nosso”.

Antônio não gostou nada de ir morar no formigueiro (foto Antônio)

A Avenida Contagem concentra grande parte do comércio do bairro, com agências bancárias e lojas de diversos segmentos. “Essa facilidade atrai muita gente de Sabará que vem fazer compras e resolver vários problemas aqui”.