Moradora do Pompéia transforma a arte da palavra em bordados

Trocar caneta, papel por agulhas, linhas e tecido. Substituir o movimento rápido da escrita pela leveza de alinhavos, o vai e vem do ponto cruz e arremates. Pode parecer estranho, mas contar uma história afetiva bordando fatos transformou a vida de uma servidora pública e moradora interessada pelas causas sociais do bairro Pompéia. E é esta história que o Radar Leste vai te apresentar agora. 

Mércia Inês Pereira do Nascimento é servidora pública federal aposentada. A primeira formação acadêmica em Pedagogia, o dom em fazer bordados em ponto cruz, o amor pelas causas do bairro Pompéia, especialmente pelo córrego Navio/Baleia não couberam dentro do coração, das lembranças, das relações e do conhecimento adquiridos. Foram parar no livro Resgate Histórico da Bacia do Córrego Navio/Baleia.

Mas, por que contar a história de um córrego? Mércia sempre foi atuante nas questões sociais do bairro e percebia que, grande parte das doenças que eram tratadas no centro de saúde eram ligadas a falta de saneamento do córrego. Outro entrave eram as inundações e mortes nas épocas de chuva, entre outras situações, todas agravadas pelo destrato das autoridades públicas com o Navio/Baleia. “Aí veio a minha surpresa e acendeu aquela fagulha para escrever um livro. Fui perguntar para minha mãe se o córrego sempre foi tão ruim assim”.

Mércia, ao lado de dois defensores do bairro Pompéia (arquivo Mércia)

A partir do relato positivo da mãe sobre a história do córrego, Mércia foi atrás de outras narrativas e ouviu 80 memórias de entrevistados com idades entre 34 e 101 anos. Cada um foi contando sua relação, o que tinha de bom e de ruim. Gente que ia se casar e caiu nas águas com a roupa da festa, outro que era criança e a mãe levava pela mão para lavar roupa e achava tudo lindo. “Um ia indicando o outro. Anotava tudo à mão e fotografava na minha máquina analógica”.

E onde entram os bordados?

O passado de um córrego tão lindo contrastava com a realidade cinza e insalubre do cotidiano de Mércia. Ela, que aprendeu na pedagogia que a percepção visual vem em primeiro lugar, decidiu usar o talento com o bordado em ponto cruz para dar a linha, a agulha ao tecido a missão de narrar cada cena descrita pelos moradores com cor, realidade, detalhes e muito respeito a cada memória resgatada. 12 histórias foram bordadas e estão no livro. Lado a lado, os quadros somam 20m quadrados. As cores mais marcantes são o azul, o verde e o amarelo. “Primeiro os olhos precisam ser atraídos para depois os outros sentidos serem aguçados”.

Um dos bordados com narrativas colhidas por Mércia (arquivo Mércia)

O lançamento de Resgate Histórico da Bacia do Córrego Navio/Baleia foi na biblioteca Luis de Bessa, na Praça da Liberdade há 11 anos, em 15 de setembro de 2009. A obra rendeu outros capítulos, além dos que estão eternizados na folha do papel. Grande parte do córrego Navio/Baleia foi saneado, com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e do Orçamento Participativo (OP).

Um livro feito com amor, letras, tecido, linha e agulha

 Mércia imergiu nas questões do meio ambiente, aprofundou os conhecimentos na área, como no Projeto Manuelzão, se uniu a nomes como Apolo Heringer e o falecido professor Antônio Leite. Ela também partiu em missão a 20 dos 51 municípios da bacia do Rio das Velhas para ensinar bordado e dividir toda essa vivência sem fim. “Tudo o que fiz foi valorizar o lugar onde moro… as relações pessoais. Fiz  tudo isso por indignação e amor”.

Clique aqui e confira este vídeo lindo sobre a obra de Mércia.

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