Ônibus leva alimento, donativos e dignidade para quem vive nas ruas

Que todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite não é novidade pra ninguém. Até o cantor Lulu Santos transformou essa expectativa em música, não é? Mas, o que você vai descobrir é que, com o grupo Dia de Francisco, esse dia da semana pode reservar o que há de melhor no ser humano, como solidariedade, misericórdia, doação de alimento, tempo e afeto.

O grupo Dia de Francisco foi criado em maio deste ano pelo padre José Fernando de Mello, da Paróquia Nossa Senhora Medianeira e Santa Luzia, juntamente com os vicentinos da conferência São Luciano, no bairro Paraíso, região Leste de BH. E, mesmo com tão pouco tempo em atividade, desenvolve um trabalho impecável de distribuição de alimentos, roupas e da palavra de Deus aos moradores em situação de rua, todos os sábados.

Mesmo com tão pouco tempo em atividade, o grupo desenvolve um trabalho impecável de distribuição de alimentos, roupas e da palavra de Deus aos moradores em situação de rua, todos os sábados. O coordenador, Silvio Vieira, é veterano neste tipo de ação social. “Na década de 80 eu já saía pelas madrugadas como grupo de jovens da paróquia Santa Tereza e Santa Terezinha, no bairro de Santa Tereza, para fazer o mesmo”, lembra.

Voluntários do Dia de Francisco. Foto Ricardo Cunha

Trabalho dos voluntários

Cerca de 30 voluntários atuam no grupo e as atividades são bem definidas. Alguns cuidam do fundo de caixa, outros da arrecadação de comida e donativos, outros do preparo dos alimentos e da logística. E tem a turma que parte para a entrega das doações. Eles se encontram aos sábados na cozinha da paróquia e partem entre o fim da tarde e o início da noite para vários pontos de vulnerabilidade social da capital.

Um ônibus doado por um empresário para a paróquia segue cheio de esperança pra muita gente. Os destinos desta vez foram a Praça da Estação, na região Central, o bairro da Lagoinha, na região Noroeste, próximo à Praça do Peixe, a região conhecida como Cracolândia, ao lado do conjunto I.A.P.I, encerrando nas proximidades da rodoviária. Durante o percurso foram entregues 75 litros de sopa, 48 litros de achocolatado, 130 pacotinhos de bolo e outros 101 de biscoitos, além de 80 litros de água.

Para o servidor público Ricardo Cunha, que além voluntário é o fotógrafo e cinegrafista oficial do grupo, essa é uma missão que o emociona a cada sábado. “Uma vez eu percebi uma menininha com o olhar fixo na sopa que era doada. Ela estava com muita fome! A criança deveria ter, no máximo um ano e meio, e estava com a fralda molhada. Foi uma cena forte, dura de sentir. O mundo seria outro se as pessoas se doassem mais”.

Sílvio e Ricardo, juntos na solidariedade com quem vive nas ruas

E nem o medo da pandemia de Covid-19 desanima esses verdadeiros guerreiros do bem. Foi só o ônibus estacionar na Praça da Estação, na região Central, que os moradores de rua foram chegando, alguns sem máscara ou qualquer outra proteção contra o coronavírus. Cada um do seu jeito e com uma estória para contar. Como a do Raimundo de Souza Pereira. Há 12 anos nas ruas, ele fez da sopa um banquete. Segundo ele, a primeira refeição do dia. E ainda ganhou calça e blusa novinhas.

Esse baiano de Cariranha, garante que está com os documentos prontos pra se aposentar em breve e voltar para a terra natal, onde planeja construir um barraco. Não deu detalhes sobre como veio parar aqui, mas foi transparente na gratidão por aquele momento em que recebia comida, carinho e dignidade. “Quem vive na rua fica invisível e, quando é visto, geralmente não é com bons olhos”, lamenta.

Raimundo fez a primeira refeição do dia e ganhou roupas novas (foto Ricardo Cunha)

Talvez mais iniciativas solidárias como essa e políticas públicas eficazes amenizassem a triste estatística sobre quem vive nesta situação. Dados da Secretaria Municipal de Assistência Social apontam que entre 4.500 e 4.600 pessoas vivam nas ruas de Beagá. 88% são homens, 60% se declaram de cor parda, 38,8% têm entre 25 e 39 anos e 52% não concluíram nem o ensino fundamental.

O ônibus segue seu percurso e, em mais uma parada, gente com fome de tudo. O desempregado Maurício Martins de Paula tem fome de falar e discursa sobre a gratidão por aquele momento. Com uma mão segura a vasilha de sopa e com a outra, ele elogia com gestos cada voluntário do Dia de Francisco que se dedicou para fazer daquele sábado um dia melhor para quem necessita.

Para Maurício, a sopa foi temperada com amor (foto Ricardo Cunha)

E assim o ônibus da esperança seguiu pela noite. Alimentado cada irmão com dignidade.E os voluntários encerraram mais um sábado nutridos de amor, de gratidão e com a certeza de que “sábado à noite tudo pode mudar”, como diz a canção.

Quer saber como doar ou ser voluntário? Ligue para a secretaria da Paróquia Medianeira de Todas as Graças e Santa Luzia, no bairro Paraíso. Ligue para a secretaria paroquial.

Contato: (31)3463-9874