Operação policial no Jacarezinho: houve excesso policial?

O Rio de Janeiro tem uma peculiaridade completamente diferente de qualquer cidade do nosso país e do mundo. É uma linda cidade, entremeada de suas belezas naturais, um povo alegre, que vive uma situação talvez única, determinados ambientes, como as favelas, sem nenhuma intervenção do Estado. A população dessas comunidades, uma grande concentração, está espremida entre ruelas e casas edificadas pelos próprios moradores.

E ali, reina o estado paralelo, quem manda é o traficante ou a milícia. Ao estado só é permitida a entrada se houver anuência de quem comanda o local, caso contrario o destino de quem quiser se aventurar pelas vielas será inexoravelmente a morte, provavelmente depois de ser torturado.

Da mesma forma os que ali vivem, e a grande maioria são trabalhadores que procuram criar suas famílias de forma honesta, podem ter seus filhos cooptados pelo crime, onde se tornam ‘olheiros’, vendedores de drogas e assim “subindo” no status do crime. Ou então, se tiver uma filha adolescente bonita, será escolhida como ‘mulher’ de algum traficante. Estes criminosos acabam por se tornarem os sonhos, os heróis das crianças que ali vivem.

Por isto a falta do estado nestas comunidades é a principal responsável pela continuidade e o fortalecimento dos crimes, já que não existe outra alternativa para o futuro, a não ser ganhar dinheiro no tráfico de drogas. A nossa Justiça também é extremamente falha, pois aqueles que estão com uma pena por crimes cometidos, continuam soltos ou mesmo sendo liberados depois de um curto período na prisão. Neste caso do Rio de Janeiro, existe uma decisão judicial do STF – Superior Tribunal Federal – impedindo operações nas comunidades pobres neste período da pandemia, o que somente reforçam a cada dia que passa as quadrilhas que ali dominam o território.

Quando a polícia entra para cumprir qualquer decisão judicial, como foi esta na Favela do Jacarezinho, uma das mais violentas da cidade, infelizmente o resultado não poderia ser outro. Marginal não quer ser preso e como se sente dono do seu terreno, vai fazer de tudo para defendê-lo. E como sempre acompanhamos, nos diversos noticiários, muito bem armados, inclusive com fuzis utilizados em guerras pelo mudo todo, arsenal este apreendido na operação conforme fotos/vídeos mostrados logo depois.

Pergunto? Qual é a alternativa da polícia? Recuar, ir embora ou enfrentar? Acredito que ela deva cumprir com a sua obrigação legal. E para isto, mesmo que venha a ocorrer a morte de um agente da lei, ainda assim ela deve continuar avançando, o estado, mesmo que somente com a polícia deve ser respeitada, senão estaríamos em um caos ainda pior.

As criticas dirigidas à Polícia Civil do Rio de Janeiro nesta operação, onde 28 pessoas foram mortas, sendo um policial, como sendo um fracasso tendo em vista não terem cumpridos todos os mandados de prisão ou mesmo pelo grande número de mortes, foram provocadas por quem defendeu o seu terreno, onde os marginais se acham donos exclusivos. No treinamento policial existe uma doutrina conhecida como Uso Diferenciado da Força.

Esta tem a finalidade de balizar o tratamento que o policial irá dar a quem ele abordar. Se não houver resistência, o policial irá tratar com toda gentileza o seu oponente. E vai subindo os degraus, como se fosse uma escada, onde o policial tem que falar mais firme com quem não corresponde a voz de comando, imobilização, gás lacrimogêneo até o último, uso de força letal, caso seja recebido a tiros.

Marginal é que escolhe a forma como quer ser tratado pelas forças policiais. Me parece ter ocorrido esta última opção, força letal, no caso da operação policial na Favela do Jacarezinho, 06/05, quando o policial civil André Leonardo de Melo Frias tomou um tiro na cabeça, logo no início da operação, e veio a óbito antes de chegar ao hospital.

Existem alguns locais que é praticamente impossível combater sem haver danos colaterais, onde a morte pode estar em cada esquina, e este local é exatamente em comunidades paupérrimas, onde o bandido está escondido em lajes, esquinas, casas ou barreiras de concretos com buracos, onde eles se escondem, abrigam, disparam e facilitam atingir os policiais que venham pelas vielas.

Se houve excesso por parte da polícia, o Ministério Público do RJ juntamente com a Corregedoria da Polícia Civil irão investigar e se entenderem que realmente ocorreu em alguns dos casos, excesso, haverá punições, com certeza. Polícia não foi feita para matar pessoas aleatoriamente, mas ao mesmo tempo tem o direito de se defender.

A sociedade deseja uma polícia que combata diuturnamente a criminalidade, e quando assim faz e é atacada pelos criminosos, revida, e estas mesmas pessoas que batem palmas com a prisão de alguém, se vira contra ela, pelos menos uma pequena parte, quando tem de se opor e usar da força. Polícia: profissão de risco.

@elsonmatosdacosta