Pandemia pode ter contribuído para aumento na venda de tranquilizantes

Aumentou em 22% a venda de um medicamento de tarja preta usado para tratar pacientes com depressão, insônia e crise de ansiedade. Os números são de uma pesquisa realizada em 2020 pelo Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos) no País, mas podem ter reflexos este ano também.

Você confere a avaliação dos dados, feita pela farmacêutica Cristiane Aparecida Coelho. Cristiane é membro do Grupo de Trabalho de Farmácia Clínica e Comunitária do Conselho Regional de Farmácia – CRF/MG. Formada em Biotecnologia e em Farmácia, com especialização em farmácia clínica, com ênfase em prescrição farmacêutica e estética avançada. Atualmente atua em drogaria e consultório farmacêutico independente, além de docência no ensino superior.

Amanhã é teremos outra entrevista, com a contribuição de um psiquiatra.

Farmacêutica Cristiane Aparecida Coelho. Foto: CRF/MG

Radar Leste BH – É possível que o aumento nas vendas esteja ligado à pandemia do novo coronavírus?

Desde o início da pandemia percebe-se um aumento no número de pessoas em uso de tranquilizantes, em especial o clonazepam. A maioria das pessoas vive insegura e com instabilidade emocional e financeira; algumas perderam seus empregos, outras têm medo de perder e não sabem o que fazer além de muitas informações sobre o coronavírus, o medo e o pânico. A ansiedade hoje é um problema comum entre todas as pessoas e isso tem feito com que muitas procurem por um atendimento médico especializado e façam uso de tranquilizantes.

Radar Leste BH: os senhores percebem, no dia-a-dia, o aumento das vendas desse medicamento?

Diariamente são vendidas muitas caixas de tranquilizantes nas farmácias e drogarias. Devido à pandemia, algumas pessoas nunca utilizaram um tranquilizantes passaram a utilizar, relatando que procuraram o médico por sentirem medo, pânico e acuados com relação ao coronavírus.

Radar Leste BH: os senhores acreditam que esses números apresentados na pesquisas possam se repetir em 2021?

Não dispomos de dados concretos sobre o aumento na venda de medicamentos. Contudo, até que tenhamos maior controle da pandemia, a tendência é cada vez mais pessoa s fazerem uso de tranquilizantes.

Fonte: Sindusfarma

Radar Leste BH: o CRF vê com preocupação o aumento do consumo desse medicamento?

Sim. O clonazepam é um ansiolítico que age diretamente no sistema nervoso central, deprimindo a sua atividade e reduzindo a ansiedade, portanto causa dependência e efeitos de abstinência quando o mesmo é retirado de forma abrupta. Para que o tratamento seja interrompido é necessário fazer um ‘desmame’ antes de retirá-lo completamente.

Antes da utilização do medicamento, é importante avaliar os benefícios frente aos possíveis efeitos colaterais como: sonolência, cansaço, diminuição da coordenação motora, diminuição da capacidade de concentração e amnésia para eventos recentes; tontura, aumento da salivação, dor muscular, distúrbios do sono, aumento da frequência urinária e visão borrada, além da possibilidade de provocar, em algumas pessoas pensamentos suicidas, principalmente se o paciente já tiver depressão grave.

Outra situação preocupante é a reação paradoxal: em vez do medicamento causar inibição do sistema nervoso, ele provoca um efeito contrário, deixando o paciente hiperativo e, às vezes, agressivo, sendo essa reação mais comum em pessoas jovens e em pacientes psiquiátricos.

Radar Leste BH: quais orientações o CRF com relação ao uso correto desse tranquilizante?

– Não tomar tranquilizantes sem o consentimento do médico.

– Não fazer uso de bebidas alcoólicas durante o tratamento.

– Fazer o ‘desmame’ de forma correta.

– Cuidado ao manusear máquinas e dirigir.

– Não fazer o uso concomitante com anti-histamínicos.

Deve ser administrado com cautela em pacientes com doenças do fígado, em pessoas com depressão grave, com histórico de abuso de drogas ou álcool ou em idosos com elevado risco de sofrer quedas. Em casos de dúvidas, procure o médico ou o farmacêutico.