Psiquiatra alerta: venda de tranquilizantes era alta antes da pandemia

O Radar Leste continua repercutindo os dados da pesquisa do Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos) sobre o aumento da venda de tranquilizantes em 2020. Ontem conferimos a avaliação de uma representante do Conselho Regional de Farmácia. Hoje é vez do psiquiatra Marco Túlio de Aquino, cooperado da UNIMED-BH, mestre em Ciências da Saúde, terapeuta cognitivo-comportamental e professor universitário.

Para o doutor Marco Túlio, não se pode descartar a hipótese de uso abusivo ou inadequado desse tipo de medicação. E ele faz um alerta: mesmo antes da pandemia os tranquilizantes sempre foram vendidos em larga escala no País.

Doutor Marco Túlio de Aquino. Foto: Unimed BH

Radar Leste BH – O medicamento citado na pesquisa é muito conhecido pelo efeito tranquilizante. É possível que o aumento nas vendas esteja ligado à pandemia do novo coronavírus?

Importante esclarecer que essa classe de medicamentos, os benzodiazepínicos, entre eles o Clonazepam, o diazepam, o alprazolam e o lorazepam estão entre os mais prescritos na lista do Food and Drug Administration (FDA, Agência Federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos), estando também entre os mais prescritos no Brasil, mesmo antes da pandemia.

Os benzodiazepínicos são medicações que também tem eficácia sedativa e anticonvulsivante. Possuem uma ação rápida, podendo ser utilizados de forma segura em ambiente de emergência ou ambulatorialmente com orientação médica, se utilizados por curtos períodos. Devemos lembrar que o Brasil tem uma das mais altas taxas de transtornos ansiosos do mundo, independe da presença da pandemia da Covid-19.

Não podemos deixar de pensar também na possibilidade de estar ocorrendo um fenômeno de uso inadequado e abusivo ou até de automedicação indiscriminada e sem qualquer controle médico especializado. Não são hipóteses que podem ser descartadas. Estudos poderão comprovar ou não essas possibilidades. Pesquisas e monitoramento das prescrições pelo poder público podem ser necessários para a confirmação desses dados.

A automedicação deve ser combatida. Foto: Gabriel López por Pixabay 

 Radar Leste BH – Porque aumentou a venda desse medicamento? Estamos mais ansiosos, deprimidos… É um momento de dificuldade para muitos de nós?

É possível que essa hipótese seja verdadeira, considerando que outros trabalhos e levantamentos têm demonstrado o forte impacto da pandemia na saúde mental das pessoas, sendo inquestionável a mudança importante ocorrida no nosso estilo e qualidade de vida, além de todo o sofrimento resultante do número de perdas de vidas, sequelas da doença e dificuldades socioeconômicas resultantes da pandemia. É um fenômeno sentido em todo o planeta.

Não podemos é nos esquecer de que os benzodiazepínicos já são medicamentos muito consumidos e que o fenômeno da pandemia talvez seja mais um elemento causador do incremento desse uso.

Outras hipóteses também merecem melhor investigação. Não podemos descartar também a possibilidade de aumento de consumo pelo uso inadequado e abusivo ou até a automedicação indiscriminada e sem qualquer controle médico especializado

Importante é esclarecer que os benzodiazepínicos não são a primeira escolha no tratamento dessas patologias e são medicamentos que devem ser usados com estrita supervisão médica considerando o grande potencial de dependência e abuso que possuem quando usados sem orientação adequada.

Divulgação: Sindusfarma

Radar Leste BH –  O senhor vê com preocupação o aumento do consumo desse medicamento?

Vejo com grande preocupação o uso abusivo de qualquer medicamento. É importante esclarecer que não existe uso seguro de qualquer medicamento, sem orientação médica adequada. Os transtornos mentais envolvem complexas etiologias, que incluem interações entre fatores de risco genéticos e não genéticos ligados ao meio em que vivemos e os seus estressores.

Apesar do grande avanço no diagnostico e tratamento, ainda hoje, em boa parte das vezes a saúde mental é relegada a um segundo plano no contexto geral do sistema de atendimento em saúde. Existem crenças antigas e equivocadas sobre os transtornos mentais e que usualmente são carregadas de estigmatização e discriminação.

Considero que a ausência de um diagnóstico adequado e um tratamento especializado dos transtornos mentais nas suas mais variadas formas de apresentação podem sim resultar no uso indiscriminado e abusivo de determinados medicamentos com as suas várias consequências danosas para a saúde geral do indivíduo.

Radar Leste BH – Quais orientações o senhor pode passar com relação ao uso correto desse tranquilizante?

 – Nunca tome medicamentos sem orientação médica adequada.

– Avalie sempre com o médico da sua confiança a necessidade e a conveniência da continuidade de uso dos seus medicamentos. A prescrição de benzodiazepínicos deve ser constantemente avaliada, considerando as particularidades de cada paciente, bem como seu risco versus beneficio.

– Muito cuidado ao associar classes diferentes de medicamentos sem orientação adequada.

– Não associar benzodiazepínicos ao álcool ou outras drogas com ação no sistema nervoso central.

– Cuidado ao usar essa classe de medicamentos e tiver que conduzir veículos automotores, operar máquinas, equipamentos, realizar atividades perigosas, subir em locais altos ou fazer mergulhos.

 – Estes medicamentos não devem ser utilizados por mulheres grávidas ou em amamentação sem orientação médica.

– Se estiver utilizando essa classe de medicamentos (benzodiazepínicos) há longo período, procurar um profissional especializado para uma devida orientação sobre a eventual retirada, considerando que a retirada abrupta pode trazer sinais de abstinência.