Resultados x planejamento: justificativa usada para contratar um treinador

Quantas vezes ouvimos dirigentes do futebol brasileiro falando em projeto e planejamento para justificar ou explicar a contratação de um treinador? É a frase mais comum e a mais frágil do futebol. Ela não resiste aos resultados ruins imediatos. A troca de treinadores é tão frequente que por muitas vezes sequer merece ser levada a sério. E a explicação, para uma demissão é sempre a mesma também: “agradecemos o empenho do fulano, mas os resultados não vieram e temos que tentar mexer com o time e mudar”, frase que ouvimos da maioria dos dirigentes ao desligar um técnico.

O anúncio da chegada do Felipão para comandar o Cruzeiro, com contrato até o fim de 2022, segue a mesmice dos dirigentes de futebol. A justificativa anunciada, com toda a pompa que merece o treinador pentacampeão do mundo, é que ele aceitou porque há um projeto de longo prazo, grandioso, de resgate do clube. Mas sinceramente, quem já tem anos acompanhando os bastidores do futebol sabe que, no momento que o clube atravessa, dificilmente a direção vai sustentar o treinador se rapidamente ele não tirar o Cruzeiro da posição que se encontra, com risco imediato de queda para a Série C.

A direção atual do Cruzeiro validou o técnico Enderson Moreira, contratado pelo então Conselho Gestor, que ficou no comando do time por apenas 12 jogos. Os resultados não vieram e o clube trocou Enderson por Ney Franco que ficou apenas 7 jogos à frente do time até ser demitido. Em ambos os casos, os dois tinham a confiança e comungavam do projeto de reconstrução do clube que passa por uma grave crise moral, financeira e de futebol. Não resistiram a alguns resultados. E não estou julgando as mudanças. Estou apenas justificando que fica difícil acreditar em falas de planejamento e projetos, diante da crise mais grave da história do clube, e com resultados negativos em campo.

Para o Cruzeiro, mais do que falar em projetos grandiosos, é urgente o resgate da credibilidade do time e resultados positivos em campo. Jogo a jogo. Sem olhar muito para os demais adversários. O clube está como um doente grave, precisando de cuidados imediatos na UTI para sobreviver. Não é permitido à equipe médica pensar em como esse paciente vai curtir a vida depois que deixar o hospital e como vai conquistar grandes resultados no futuro. É luta pela vida. Dia a dia. Diante deste quadro, seria muito mais digno para os envolvidos no projeto Felipão ressaltar o que ele pode e vai fazer agora para tirar o time de onde está.

Planejamento estratégico de médio prazo é fundamental para qualquer gestão empresarial. E para o clube de futebol, que pelo CNPJ não é uma empresa, mas de fato o é, esse planejamento é uma necessidade também. Para o Cruzeiro, no meio da tempestade e da crise, usar esse argumento para justificar a contratação milionária do treinador, ressaltando que quem vai pagar a conta será um patrocinador e não o clube, não é melhor caminho. Dar credibilidade ao trabalho do Felipão falando de futuro é negar o presente caótico e a pressão para que o time saia da parte de baixo da tabela na Série B.

O Cruzeiro deveria focar sempre no próximo jogo, seja na fala do presidente, dos atletas ou do novo treinador que está chegando. Esse projeto Felipão de longo prazo não vai resistir se as vitórias e a subida na tabela não acontecerem o mais rápido possível. Na posição que se encontra o clube, a fala de planejamento de coisas grandiosas teria que ter ficado para depois ou apenas internamente. Seria mais justo para ter o apoio do torcedor.

Twitter @armandoBH69